Ainda coleccionam recordações
Por nosso lado, recebemos sabão, cigarros, chocolate e conservas. Pelo nosso cão até querem dar uma mancheia de dinheiro, mas por esse podem oferecer o que quiserem que o Wolf fica connosco.
“Nota-se que ainda não estão há muito tempo na guerra. Ainda coleccionam recordações, divisas, emblemas, fivelas, condecorações, botões de uniforme. Por nosso lado, recebemos sabão, cigarros, chocolate e conservas. Pelo nosso cão até querem dar uma mancheia de dinheiro, mas por esse podem oferecer o que quiserem que o Wolf fica connosco. Em compensação, temos sorte com os nossos feridos. Um americano com tantos dentes de ouro que o focinho lhe brilha como se fosse uma oficina de ourives quer as ligaduras ensanguentadas, para provar em casa que são realmente de papel. Oferece bolachas excelentes e, sobretudo, ligaduras. Muito contente, arruma, na mala, cuidadosamente, os farrapos, sobretudo os de Ludwig Breyer, porque, enfim, sempre é sangue de tenente. Ludwig teve de escrever nas ligaduras a naturalidade, o nome e o regimento, para que na América pudessem ver que não se tratava de fraude. A princípio, ele realmente não queria, mas Weil convenceu-o, pois tínhamos absoluta necessidade das ligaduras. Além disso, para ele, com a desinteria, as bolachas eram realmente a solução.”
Erich Maria Remarque, O caminho do regresso – Trad. Maria Helena Rodrigues dos Santos. Publicações Europa América 1978, pp23-24.


