Descarregue à vontade
Eh, senhor mestre, Deus lhe pague a grande esmola que me fez, seja pela sua saúde e dos seus e pela alma dos que já lá tem
“Num domingo de manhã, já com a oficina construída, o Pai vê vir de cima um homenzinho de fora da terra, com ar de quem está em ânsias. Amarelo enfiado e com vontade de dar de corpo. Ao vê-lo naquele estado de angústia, o Pai, que estava por perto, disse-lhe logo, solícito, Eh, senhor, entre aqui no largo da oficina e agache-se no canto contra o muro, para que ninguém o veja da rua, e descarregue à vontade ...
Foi o que o homenzinho quis ouvir. Entrou, acocorou-se no canto que lhe havia sido indicado, e aliviou-se de tal maneira que, quando apareceu, parecia ter uma cara nova, Eh, senhor mestre, Deus lhe pague a grande esmola que me fez, seja pela sua saúde e dos seus e pela alma dos que já lá tem; agora, se me dá licença, queria pedir-lhe um sacho para enterrar a bosta ...
Com a franqueza que lhe conhecíamos para com os de fora, o Pai respondeu-lhe, Não, senhor; vá e siga o seu caminho em descanso, que alguém há-de fazer o serviço; sei muito bem o que custa; já tenho passado pela mesma agonia ...
O monte era majestoso, espiralado, uma poiazinha mais clara no cocuruto, sorte de cereja no topo do bolo. Enterrou-o, pouco depois, o Ti Manuel Cabral. Antes de pôr mão à obra, teve de emborcar um copo de dezasseis de cachaça da terra, tal seria a fedorência, que podia ficar-lhe atravessada na garganta, como as grandes bufas silentes da Flávia e do Silvério, os dois maiores bufões que Santa Luzia alguma vez conheceu. Cada qual nasce com o seu talento …”
Cristóvão de Aguiar, Catarse – Diálogo epistolar em forma de romance, Com Francisco Aguiar. Edições Afrontamento 2017, p 219.

