Era Adele
Voltou a sensação, plena, vibrante, adejante, apagaram-se os anos, um arco liga ao passado, um arco-íris, uma ponte luminosa que atravessa a neblina.
“Continuamos a andar. A neblina ondula. O Wolf brinca com ela. Rostos aproximam-se e desaparecem. À luz lívida deparo subitamente com um chapéu vermelho, brilhante, de verniz, e, por baixo, um rosto delicadamente embaciado pela humidade, mas onde os olhos, por isso mesmo, brilham mais.
Fico parado, o coração a bater. Era Adele. Pouco a pouco, revivo a lembrança das noites passadas, onde nós, com dezasseis anos, esperávamos, escondidos na penumbra, diante das portas do ginásio, que as raparigas saíssem com as suas camisolas brancas, para corrermos pelas ruas atrás delas, até as alcançarmos, de respiração opressa, debaixo de um candeeiro, onde parávamos a olhá-las em silêncio ... até que elas se libertavam, para recomeçar a perseguição ... lembrança das tardes em que as víamos em qualquer sítio, sempre uns passos atrás delas, demasiado acanhados para lhes falarmos, e só quando elas iam a entrar em casa, cobrando ânimo para lhes gritarmos adeus, antes de fugirmos ...
O Valentin olha em redor.
- Tenho de me ir já embora - digo precipitadamente -, preciso de falar com uma pessoa.
E corro atrás do chapéu vermelho, luz vermelha na neblina, dias de juventude antes do uniforme e das trincheiras.
- Adele!
Ela olha em volta.
- Ernst! Estás de volta!
Seguimos ao lado um do outro. A neblina corre pelo meio de nós. O Wolf dá saltos e latidos, tilintam as campainhas dos eléctricos e o mundo está quente e suave. Voltou a sensação, plena, vibrante, adejante, apagaram-se os anos, um arco liga ao passado, um arco-íris, uma ponte luminosa que atravessa a neblina.
Não sei de que falamos, mas também não importa. O principal é caminharmos lado a lado e que regresse esta música suave, inaudível, estas cascatas de pressentimento e saudade, para lá das quais cintilam os verdes prados, sussurram os choupos prateados e se adivinha o horizonte suave da juventude.
Andámos muito tempo? Não sei. Regresso só. A Adele despediu-se, mas em mim, trémula como uma bandeira colorida, renasce a alegria, a esperança e a plenitude, o meu quartinho de rapaz, as torres verdes e o espaço imenso.”
Erich Maria Remarque, O caminho do regresso – Trad. Maria Helena Rodrigues dos Santos. Publicações Europa América 1978, pp122-123.


