Gosto mesmo de sucata
Há antiguidades suficientes à venda ao longo das estradas da Nova Inglaterra para mobiliar as casas de uma população de cinquenta milhões de pessoas.
“Nunca consigo habituar-me às milhares de lojas de antiguidades ao longo das estradas, todas a abarrotar de tralhas autênticas e comprovadas de tempos passados. Acredito que a população das treze colónias tinha menos de quatro milhões de almas, e cada uma delas deve ter produzido freneticamente mesas, cadeiras, porcelana, vidro, moldes de velas e pedaços de ferro, cobre e latão com formas estranhas para futura venda aos turistas do século XX. Há antiguidades suficientes à venda ao longo das estradas da Nova Inglaterra para mobiliar as casas de uma população de cinquenta milhões de pessoas. Se eu fosse um bom empresário e me importasse um pouco com os meus bisnetos ainda por nascer, o que não é o caso, juntaria todo o lixo e os automóveis destruídos, vasculharia os aterros da cidade, empilharia esses achados em montanhas e borrifaria tudo com aquela coisa que a Marinha usa para conservar navios. Ao fim de cem anos, os meus descendentes teriam licença para abrir esse tesouro e seriam os reis mundiais das antiguidades. Se as coisas amassadas, rachadas e quebradas de que os nossos antepassados tentaram livrar-se agora rendem tanto dinheiro, imagine o que um Oldsmobile de 1954 ou um Toastmaster de 1960 renderão — e um Waring Mixor vintage — meu Deus, as possibilidades são infinitas! Coisas que temos de pagar para serem descartadas podem render fortunas.
Se pareço estar excessivamente interessado em sucata, é porque estou mesmo, e também tenho muita dela — metade da minha garagem está cheia de pedaços e peças quebradas. Uso essas coisas para consertar outras coisas. Recentemente, parei o meu carro em frente ao pátio de exposição de um sucateiro perto de Sag Harbor. Enquanto observava educadamente o estoque, de repente ocorreu-me que eu tinha mais do que ele. Mas pode-se ver que tenho um interesse genuíno e quase mesquinho por objetos sem valor. A minha desculpa é que, nesta era de obsolescência programada, quando algo se parte, consigo geralmente encontrar algo na minha coleção para o consertar — uma sanita, um motor ou um corta-relva. Mas acho que a verdade é que gosto mesmo de sucata.”
John Steinbeck, Travels with Charley (1962) – Bantan Books 1963, Trad. O’Lima 2026, p 37.


