Isto é poder
Samuel invejara Dog por aquelas botas. Pelo seu uniforme. Quem não queria ser mais do que era, quem não queria sair da miséria e ser alguém?
“A fotografia era de um jovem, pouco mais do que um adolescente, vestido com um uniforme militar. (…)
Samuel olhou para as botas pretas brilhantes, para a espingarda pendurada no ombro de Dog como se fosse uma mala de mão.
«Isto», disse Dog, «isto é poder. Sou alguém a quem as pessoas têm de dar ouvidos. Devias fazer o mesmo. Não podes ficar para sempre escondido debaixo dos bancos do cinema, a ver filmes de polícias e ladrões. Joga na vida real.»
«Achas que os sapatos transformam um cão numa pessoa? Vais ser um cão toda a tua vida.»
«Pelo menos serei mais do que tu alguma vez serás.»
Mas isso fora há muito tempo, antes de Meria, antes dos protestos. Antes da prisão. Mesmo assim, era em Dog que ele se reconhecia em muitos dos soldados e guardas, todos os dias do seu tempo de prisão. Jovens que não faziam ideia do que estavam a fazer. Que estavam sempre prontos para a porrada, que batiam com as espingardas nas grades, que gritavam ordens que lhes mandavam dar. E a verdade era que, nessa altura, e talvez mesmo muito tempo depois, Samuel invejara Dog por aquelas botas. Pelo seu uniforme. Quem não queria ser mais do que era, quem não queria sair da miséria e ser alguém?
Samuel pôs as fotos de lado. O homem inclinou-se sobre a mesa, pegou nelas e examinou-as lentamente enquanto Samuel abria o álbum.”
Karen Jennings, An island – Holland House Books 2020, p 99-101. Trad. O’Lima 2026.


