Mas que ideal é este?
Mas com as doses semanais de cultura foi-lhes enfiada uma outra lei, uma lei artificial de avaliação: aquele que melhor engole as suas doses é distinguido e tido como o melhor.
“Toca para o intervalo das dez. Dei uma hora de aula à classe mais adiantada. Agora, os garotos de catorze anos passam por mim a correr para o pátio. Observo-os da janela. Em escassos segundos transformam-se completamente, libertam-se da pressão da escola e readquirem a frescura e a espontaneidade da sua idade. Quando estão sentados à minha frente, nas carteiras, não são autênticos. Há neles qualquer coisa de hipocrisia e ambição, ou fingimento e rebeldia.
Os sete anos de escola conseguiram ensiná-los. Simples, sinceros, despreocupados como animais jovens, vieram dos seus prados, dos seus jogos e sonhos para a escola - ainda vigorava entre eles a lei da vida e o mais vivo, o mais forte, era o chefe, a quem os outros seguiam. Mas com as doses semanais de cultura foi-lhes enfiada uma outra lei, uma lei artificial de avaliação: aquele que melhor engole as suas doses é distinguido e tido como o melhor. Os outros, têm de rivalizar com ele.
Não admira que os mais vivos se rebelassem. Mas tiveram de se resignar, pois o bom aluno é agora o ideal da escola. Mas que ideal é este? E que é feito dos bons alunos no mundo? No viveiro da escola gozam de um breve esplendor - para mais seguramente mergulharem depois na mediocridade e na subalternidade. Só com os maus alunos é que o mundo tem avançado.”
Erich Maria Remarque, O caminho do regresso – Trad. Maria Helena Rodrigues dos Santos. Publicações Europa América 1978, pp159-160.

