O cachapim
Ou esteve na trincha um tempo e conseguiu de lá sair — o que demonstra a sua inteligência — ou devendo para lá ir, nunca lá poz os pés, — no que prova ser muito mais esperto do que parece.
“O ‘cachapim’ é aquêle camarada, que, como nós das camadas modestas do exercito, não sabendo nada da guerra de Tróia e mal de organisar as camisolas na própria mala, conseguiu um lugar á rectaguarda. Ou esteve na trincha um tempo e conseguiu de lá sair — o que demonstra a sua inteligência — ou devendo para lá ir, nunca lá poz os pés, — no que prova ser muito mais esperto do que parece. A guerra é uma calamidade; mas, havendo maneira de se ir passando essa calamidade a muitos quilómetros da linha numa repartição onde os dias são monótonos e num bolêto tranquilo onde as noites são remansosas, porque não se ha-de colher a ocasião que passa sob o aspecto dum conhecido agaloado ou procurá-la por meio da carta dum amigo bem colocado em Lisboa ou na própria frente.
O cachapim não vive porém, inteiramente tranquilo. Ha sempre uma probabilidade de que o remetam ou o reenviem para a malta. Ha gente por lá que angaria preferencias para os logares de repouso, deixando-se ferir estupidamente ou ganhando louvôres e condecorações.”
André Brun, A malta das trincheiras – Guimarães Editores 1923, pp 132-133.


