O Inglez
No momento próprio, segue para a terra de ninguém tal como ha quatro anos em Londres ou em Cambridge pegava no chapéu e na bengala para ir para o seu office ou para a sua loja.
“Para o inglez a guerra é a repartição, o escritório, a oficina, o trabalho, emfim, que tem as suas horas marcadas, findas as quaes se pensa noutra coisa. Se posérem um súbdito de Sua Magestade Gracíosa a dusentos quilómetros do front, carimbando durante uma tarde inteira guias e recibos, êle dirá daqui a vinte anos a quem lhe perguntar o que fasia no mez de junho de 1918 : — “Estava na guerra». Se, de surprêsa, o mandarem seguir para a linha da frente, o encorporarem num batalhão de ataque, marchará sobre o Fritz com a mesma impassibilidade com que carimbava ante-ontern e dirá daqui a vinte anos com a mesma fleugma: — “Estava na guerra».
Para nós, nas trincheiras, um raid ou uma patrulha é um acontecimento que se discute durante dias ou durante horas. O inglez — tive ocasião de o presenciar — conversa de tudo ou não conversa até á hora marcada. No momento próprio mira o relógio de pulseira e, pondo o capacête, afivelando a pistola, segue para a terra de ninguém tal como ha quatro anos em Londres ou em Cambridge pegava no chapéu e na bengala para ir para o seu office ou para a sua loja. Alguns vendiam presuntos antes de serem capitães, ao que se diz. Pois o que me surpreende é que vendam hoje guerra com a mesma falta de entusiasmo e o mesmo escrûpulo no pêso.”
André Brun, A malta das trincheiras – Guimarães Editores 1923, pp 199-200.


