O Pai em cima da Mãe
Quando repararam que eu estava em pé, no berço, o Pai perguntou-me, Estás aí há muito tempo? O Pai só estava a brincar com a Mãe; não é preciso estares a chorar
“Uma vez vejo-me em pé dentro do berço a ver o Pai em cima da Mãe. Acordei com o barulho da cama e dos seus gemidos. Quando repararam que eu estava em pé, no berço, o Pai perguntou-me, Estás aí há muito tempo? O Pai só estava a brincar com a Mãe; não é preciso estares a chorar ...
Voltei a deitar-me sem saber o que se estava a passar.
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Creio que o mesmo aconteceu ao Augusto, mas numa idade mais avançada, oito/nove anos. Diz ele que acumulou tanta raiva ao Pai, misturada com ciúme, que é possível que esta tenha sido uma das origens do ódio que alimentou toda a vida contra ele. Não posso nem sei avaliar se tal trauma existe ou não e se provoca reacções psicológicas tão devastadoras ...
O escritor António Lobo Antunes, num dos seus primeiros romances, escreve que fazia amor com a Mãe de suas filhas de porta aberta, para que elas dessem conta do grande amor que unia os pais ... Já em Gente Feliz Com Lágrimas, de João de Melo, o narrador, ao ouvir, em criança, o ranger da cama dos pais, vociferava de fúria ... Compreende-se. O narrador, mascarado de escritor, odiava o pai com tal veemência que muitos dos que leram o romance, incluindo alguns escritores, confundiram um com o outro. Saramago, por exemplo, não fazia a destrinça entre narrador e escritor. Que se pronunciem os teóricos da Literatura, que, entre si, devem ter posições divergentes, como é hábito nestas e noutras matérias. Veja-se o número incomensurável de religiões cristãs todas baseadas no mesmo livro, a Bíblia ...”
Cristóvão de Aguiar, Catarse – Diálogo epistolar em forma de romance, Com Francisco Aguiar. Edições Afrontamento 2017, pp 127-128.


