Uma fera miserável
As feras estão na selva, não se diz fera, mas féria ... Não sei como, mas respondi, O meu Pai diz fera ... O teu pai não tem instrução
“O Dr. Correia foi meu professor de Português. Tinha bons dotes oratórios, mas, como pedagogo, deixava muito a desejar. O livro utilizado era uma colectânea de textos de escritores neo-realistas.
Textos interessantes, mas difíceis de interpretar. Passávamos a maior parte das aulas a tirar apontamentos e a ouvi-lo discursar. Nunca nos dava a palavra.
Numa das redacções tive a infelicidade de escrever o seguinte: “Os ricos podem comprar tudo o que lhes apetece, vivem em casas de luxo, têm criadas, jardineiros e viajam muito. Os pobres trabalham no duro e recebem uma fera miserável ... “
No dia seguinte, leu à turma o que eu tinha escrito e, com ironia e sarcasmo, referiu-se à palavra fera dizendo, As feras estão na selva, não se diz fera, mas féria ... Não sei como, mas respondi, O meu Pai diz fera ... O teu pai não tem instrução ...
Nesse tempo, os professores tinham o péssimo hábito de corrigir ou repreender os alunos em público. Com os meus alunos, utilizo a repreensão privada. No fim do ano, o Correia teve “o bom gosto” de me chumbar. No primeiro período tive 10, no segundo 10 e no terceiro pariu!”
Cristóvão de Aguiar, Catarse – Diálogo epistolar em forma de romance, Com Francisco Aguiar. Edições Afrontamento 2017, p 185.


