Veio a arrepender-se
Deixara o certo pelo incerto. Se tivesse ficado na Ilha, teria uma reforma maior do que a que veio a receber na nação de Deus e do dólar
“Procurou o Jaime industriar o filho unigénito na arte de Fígaro. Não deu grande coisa. Só sabia rapar queixadas e mesmo assim ... Num domingo de manhã entrei na tenda para ser escanhoado. Calhou-me o filho. Eu tencionava aparecer à namorada com a cara sedosa, macia e cuidada ... Não que vislumbrasse um suposto instante de afago, mas, enfim ...
Levantei-me da cadeira a sangrar. A navalha escorregara-lhe da mão e fez-me um lanho fundo no lado direito da face. Pôs-me álcool ou aguardente da terra, forte, já nem me recorda, para que o sangue estancasse. Não satisfeito com a medicação, foi à casa da lenha buscar uma teia de aranha, na Ilha chamada paranho, que me colocou sobre a ferida à guisa de compressa macia! Pouco depois, já o sangue se tinha sustido e secado, deixando-me uma bostela no sítio do talho. Ergui-me da cadeira das torturas com ar de um dos santos mártires de Marrocos …
Casou-se mais tarde, já carteiro encartado, e ninguém entendeu como se deixara a rapariga cair naquela esparrela do canarinho da terra. Gostava de jornadear e de se esquecer, na conversa, com os destinatários da correspondência. Mau rapaz não seria. Um tanto apoucado da mente, talvez. Só interrompeu o itinerário postal, que já sabia de olhos fechados, no momento em que o Visto para embarcar chegou ao Consulado Americano, sediado na Cidade. Veio a arrepender-se de ter deixado de ser carteiro. Ganhava bem. Deixara o certo pelo incerto. Se tivesse ficado na Ilha, teria uma reforma maior do que a que veio a receber na nação de Deus e do dólar ... O God’s Country …”
Cristóvão de Aguiar, Catarse – Diálogo epistolar em forma de romance, Com Francisco Aguiar. Edições Afrontamento 2017, pp 107-108


